Revista Pronews: Receba, melhore, distribua

Revista Pronews: Receba, melhore, distribua

Matéria originalmente publicada na Revista Pronews número 89, de junho de 2007.

Jornalismo Open Source, Creative Commons, Copyleft. Antes de pensar que este jornalista anda com as idéias desbaratadas, saiba que muitos dos conceitos associados a esses termos de nomes tão exóticos a nosso idioma comum estão presentes de maneira cada vez mais representativa em nosso dia-a-dia. Graças, em boa parte, ao desenvolvimento e popularização do que hoje conhecemos como internet. Mas vamos a eles.

Velho conhecido dos entendidos em informática, o conceito open source no jornalismo implica em uma informação praticada de forma plenamente livre, participativa e aberta à intervenção de quem se interessar. Suas origens datam do ano de 1997, quando foi criado o fórum Slashdot, considerado o primeiro no mundo a ser alimentado exclusivamente por material enviado pelos leitores. O open source tem seu maior exemplo na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org, endereço da versão em português), grande enciclopédia livre da internet que permite a qualquer pessoa criar, alterar ou apagar verbetes.

“Teoricamente, o jornalismo colaborativo não precisa da internet. Mas, na prática, ele só deslanchou graças às características inerentes ao meio, que facilitou a comunicação, deu voz a quem antes só era receptor de informação e descentralizou a produção de conteúdo”, avalia o jornalista pernambucano Walmar Andrade, responsável pelo site www.fatorw.com e autor da revista eletrônica Roda Pernambuco (atualmente fora do ar), que se propunha a dar a liberdade aos internautas de retocarem as matérias que não tivessem sido do agrado deles. “Se pensarmos bem, o open source sempre aconteceu: as pessoas costumam ligar para o jornal da cidade quando presenciam algum fato que acham digno de notícia ou dão as informações que formarão a notícia da imprensa. Também é comum programas de rádio abrirem espaço para que os ouvintes liguem e reportem situações de trânsito, enchentes, etc. O que a internet fez foi maximizar essa possibilidade”, afirma Walmar. Um atual exemplo do que Walmar diz é a iniciativa do jornal Diario de Pernambuco, que criou o fórum Cidadão Repórter (www.pernambuco.com/cidadao). Por meio do site, as pessoas podem sugerir pautas, trocar opiniões e fazer denúncias, intervenções que semanalmente (às terças-feiras) podem ser publicadas na versão imprensa do jornal.

O Creative Commons surgiu na Universidade de Stanford, Estados Unidos, em 2002. Sua proposta? Flexibilizar os direitos autorais de determinados conteúdos disponíveis na internet (entre textos, imagens, fotografias, músicas e filmes) e, com isso, popularizar o acesse à informação. No Brasil, terceiro país a integrar a rede do Creative, o projeto é dirigido pelo Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. É do CTS a responsabilidade pela adaptação das licenças do Creative para o ordenamento jurídico brasileiro. Uma das iniciativas envolvendo o movimento pode ser vista no Portal Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br) projeto governamental que permite o livre acesse a obras literárias, artísticas e científicas que já estejam em domínio público ou recebido autorização para serem divulgadas. Tem mais, todo o conteúdo produzido pela Agência Brasil (www.agenciabrasil.gov.br), um dos maiores órgãos de comunicação do País, pode ser adquirido, reproduzido e modificado livremente pelos internautas.

Já o movimento Copyleft foi criado por Richard Stallman, fundador do Free Software Foundation. Richard teve a idéia de criar uma estratégia para garantir que todas as variações de programas originalmente criados por seu projeto de software livre continuassem seu desenvolvimento em código aberto, impedindo que alguém registrasse o Copyright do programa e, com isso, barrasse a intervenção de outras pessoas. Seu nome de batismo é uma paródia que inverte o sentido de Copyright, uma vez que ele funciona como uma proteção aos direitos autorias ao contrário, pois permite que não sejam criadas barreiras para o uso, difusão e modificação de determinada obra. Seu conceito, antes ligado apenas à informática, pode ser atualmente encontrado em áreas como a literatura e a música.

Jornalista pela Universidade de Uberaba e pós-graduado em História e História do Brasil, respectivamente, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o mineiro André Azevedo da Fonseca acredita que o Copyleft pode contribuir na discussão sobre novas formas de sustentabilidade dos autores e na democratização da informação. “O que move a ética do Copyleft é que o direito da sociedade em obter informação é mais importante que o direito individual em obter lucro através da propriedade intelectual”, afirma. Nessa linha, ele cita o desenvolvimento de um fenômeno conhecido como ativismo midiático, que se apropria do que é produzido por programas de TV e reprocessa esse conteúdo de forma anárquica. “Um exemplo são os vídeos no YouTube que parodiam os seriados do Batman e do Chaves através de uma dublagem falsificada. É a essência do espírito do Copyleft: além da obra ser copiada, ela é transformada”, explica ele.

Para André, um dos benefícios da distribuição livre seria o fim da paranóia da cópia. “Se proibirem o eMule, como fizeram com o Napster, logo surgirão cinco novos programas desse tipo. É comercialmente interessante que a obra torne-se popular, mesmo que através de cópias não-oficiais. Funciona como um marketing”, avalia. “Chegamos a um momento em que seria hipocrisia não disponibilizar os MP3 em Copyleft”, afirma o músico Marcelo Campello, integrante da banda Mombojó e membro do coletivo Media Sana (www.mediasana.org). “O que vemos hoje é a agonia de um conceito obsoleto da maneira como se queria o Copyright. Vemos corporações processando crianças e querendo se meter onde não cabem, registrando conhecimentos ancestrais indígenas, códigos genéticos e até a rapadura, que agora é alemã!”, critica o artista.

Na opinião de Marcelo, a estratégia de disponibilizar as canções do recente CD do Mombojó (“Homem Espuma”) no site oficial do grupo (www.mombojo.com.br) tornou-se valiosa pelo fato de se ter conseguido uma projeção maior que aquela permitida por meios convencionais. Ele encara o CD como um cartão de visitas das bandas como um todo, um panfleto que antes era vendido e que hoje é distribuído gratuitamente, ou por um preço simbólico. Quanto ao Media Sana, a relação com o conceito de Copyright se mostra ainda mais radical. “Fazemos um remix de imagens protegidas veiculadas na TV através de um curso de programas crackeados. A música também é feita a partir de samples de músicas famosas, o que cria uma salada reciclada gigantesca”, conta.

Contudo, a despeito de sua popularização crescente, essas três iniciativas carregam nos conceitos que as tornam possíveis uma boa dose de polêmica. Por exemplo, ao sugerir que todos podem fazer jornalismo e intervir nos textos do próximo, o conceito open source esbarra na questão da formação do profissional para exercer a função de jornalista, além de colocar em pauta algo fundamental: a credibilidade da informação divulgada. Apesar disso: “A distribuição de informação gratuita é algo que está aí. Não dá para ficar fingindo que é possível ter controle”, alerta André. Ele cita o curioso processo movido pela Disney contra creches nos Estados Unidos, que tinham pintadas imagens do Mickey e do Pateta em suas paredes. “Não é possível regular um mundo totalmente novo com o conceito de propriedade intelectual do século 19. É preciso repensar os modelos tendo em vista o favorecimento da produção e consumo da informação”, diz.

“Tudo o que um autor de verdade quer é ser lido para contribuir no pensamento de sua sociedade”, analisa André Azevedo, que diz ainda: “O conceito filosófico de originalidade está sendo muito discutido. Somos produto de nosso meio e recebemos tantas influências no dia-a-dia que, conscientemente ou não, estamos sempre copiando o que um dia aprendemos. Como fazemos cópias malfeitas, repletas de distorções, e como agregamos outras influências aos textos que lemos, acabamos por transformar as informações em novos conhecimentos um pouco diferentes daqueles que aprendemos”. “Se antes alguns poucos transmitiam informação para muitos, hoje temos um mundo de pontas onde cada pessoa pode ser emissora de informações de forma fácil e abrangente”, analisa Walmar Andrade.

FAÇA VOCÊ MESMO – E quem disse que a publicidade ficaria de fora dessa onda? Nos Estados Unidos, um grupo de publicitários criou o Adbusters (www.adbusters.org), iniciativa que se apropria de marcas ícones do mercado, como os cigarros Marlboro e a rede de fast-food McDonald’s, para criar campanhas críticas e bem-humoradas. Quando de sua chegada ao Brasil, a BenQ lançou campanha publicitária na internet na qual o usuários eram convidados a enviar vídeos em que mostravam como seria a pronúncia, na visão deles, do nome da marca. Tem ainda a marca de sandálias Melissa, responsável pela ação Create Yourself, na qual quatro garotas tiveram a responsabilidade de criar uma campanha para a marca. No que tange o jornalismo open source, tem-se a revista Sou + Eu, feita exclusivamente pela participação das leitoras; e o portal Lancenet, que publica material produzido por internautas; entre outros. Tal qual a Repórter Brasil, (www.reporterbrasil.com.br), organização não-governamental cujos eixos de atuação incluem o jornalismo social e o combate à escravidão. O site publica material enviado por usuários e permite que suas matérias sejam divulgadas em outros endereços. “Este é um sinal do que acontecerá nos próximos anos. O conhecimento tem uma função social. A informação não é estanque e vai parar de ser vista como ponto final para passar a ter uma função social. Isso vai ser útil para democratizar a informação, e quem remar contra a maré vai se dar mal”, prevê Leonardo Sakamoto, coordenador-geral da instituição, a respeito dessas iniciativas um tanto rebeldes que pregam a liberdade de criação, informação e distribuição e, mais que se complementar, se auto-influenciam.

Walmar Andrade
Perguntas dos alunos