Micrônicas, por Walmar Andrade


O Fracassado

Sua frustração era tão imensa que chegava a ser frustrante observá-lo. Chamava-se Walter e a única certeza que tinha era que viajava naquela motoneta rumo ao próprio jazigo.

Tentou achar a estrada com destino à Arcádia, no entanto possuía tanta habilidade sobre duas rodas quanto no trato com as mulheres. Zero setenta e cinco graus de astigmatismo na vista, treze de miopia no coração.

A mediocridade que pautou toda sua existência o levou à praia deserta mais lugar comum que o inconsciente coletivo pôde conceber. E foi lá onde Walter esperou uma semana para ler nos jornais o chamado para a sua missa de sétimo dia.

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Flúor

Jânio era daqueles que passava fio dental todas as noites. Penteava o cabelo para o lado. Dava duas voltas na fechadura.

Prestou concurso público. Usou camisinha. Casou-se com a primeira namorada. E nunca teve um dente obturado.

Aposentou-se aos sessenta e cinco anos. Acumulou uma boa poupança. E pelos serviços prestados, ganhou da repartição uma placa de metal.

Morreu imaginando se a vida não teria sido melhor com uma cárie ou outra pelo meio do caminho.

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Uma Passagem

Semana que vem vou fazer 30 anos e eu nunca fui ao Rio de Janeiro. Nunca li metade dos livros que gostaria de ler, nem vi um terço dos filmes que gostaria de ver. O Náutico nunca foi campeão da Libertadores; provavelmente nunca será.

Em três décadas, muitas coisas que deveriam ter acontecido não aconteceram. Porém, toda manhã, lá pelas cinco pras oito, cruzo com a tenente de pernas grossas e chapeuzinho engraçado.

Você sabe, essa mania que eles têm aqui no Sul de mandar parar quando alguém está na faixa.

Ela atravessa todo dia com a bunda apertada naquela saia verde oliva que deixa só as panturrilhas como amostra grátis. Certeza que algum coronel pervertido desenhou esse uniforme.

Nem sei se tenente é. Chutei a patente pelo porte do carro que ela estaciona ali atrás do Ministério da Defesa. Provavelmente nunca saberei ao certo. Mas semana que vem sem falta vou comprar uma passagem para o Rio de Janeiro.

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Bela Bela

Isabela tinha somente 17 anos de nascida, mas já possuía na língua malícias de mulher feita. Menina outono, subtraía do calendário folhas que sempre caíam no primeiro dia de abril.

Usava apenas a primeira metade do nome para se apresentar. O restante deixava como adjetivo para conquistar. Isa cresceu assim, cultivando ódios sinceros através de amores fingidos.

A cada estação, a bela fornecia biscoito de pão-de-ló em uma freguesia diferente. Namorou Estácio, Rocha, Misael, o General Pedra, Aninha, Humbert Humbert, outra vez o Estácio, Zé Leiteiro, Esaú e Jacó. Estes, simultaneamente.

Certo equinócio, Isa avistou Rodolfo Augusto. Puxou o espelho para retocar o adultério, lustrou o nariz de madeira e ocultou sob esmalte rubro as unhas repletas de manchas brancas surgidas de seu passado obscuro.

Pela primeira vez, no entanto, tornou-se agente da passiva em uma oração de conquista. Fitando o desejado, a bela inspirou fundo para declarar seu inédito amor sincero. Sua boca, contudo, não sabia pronunciar verdades.

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Macumba Antitabagista

Preto Velho, Preto Velho
,
Passou tanto tempo com o cachimbo na boca
Que o danado criou asas.

Sozinho armava macumba 

Botava galinha preta em encruzilhada
E principalmente enganava trouxa.

Preto Velho, Preto Velho,
Cachimbo bigodeou tanto trouxa 

Que te fez pensar que tava te dando uma mão na vida
Quando tava era puxando teu pé pra morte.

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O Punhal

Este é o punhal com que me matei. Observando friamente, é apenas uma lâmina afiada rigidamente fixada em um bastão acrílico cuja espessura preenche bem a palma de uma mão fechada.

O uso é o mais simples possível. Basta segurar a base com a raiva de quem aperta o pescoço de outrem e aplicar a lâmina sem receio do que possa ocorrer em seguida.

Seu formato é semelhante ao da vida – redondo na base e pontiagudo na extremidade. Pequeno no tamanho, grande na capacidade de resolver de uma vez todos os meus problemas. Sua cor era vermelho-tinto. Hoje, é vermelho-sangue.

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Naufrágio

Sentado em uma rocha no Porto de Paranaguá, Alejandro Quezada fita o horizonte e observa o oceano pegando fogo.

Diante dos olhos inundados do velho marujo, o embate entre chamas e água consumia seu lar, seus amigos, suas lembranças.

Fora apresentado ao Vicuña ainda menino em Valparaíso. Com ele, conheceu quatro continentes, dezessete países e um número infinito de pessoas que sempre se resumia aos vinte companheiros de convés.

Agora, a embarcação soçobrava em meio a ilhas de fogo nascidas da explosão da sua própria carga. As labaredas alimentadas por uma imensa mancha de óleo derrotavam o mar, então já sem forças para sustentar o velho companheiro.

Alejandro decidiu não perder a derradeira viagem do cargueiro. Atirou-se no incêndio e fez questão de morrer afogado.

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Pane no Sistema

Certo dia, ao acordar, percebi que alguém me havia desconfigurado. Meus olhos de robô foram substituídos pela mais redentora visão de um Salvador Dali embriagado. Naquelas vinte e quatro horas, pude viver sob impulsos, liberto da autocrítica inibitória imposta pelas amarras da hipocrisia social.

E como rasguei o livro de ponto, atirei o celular na lagoa do pomar onde fui comer jabuticabas, disse sem ressalvas para Irene dar fim àquele buço horrendo, publiquei todas as censuras em manchete de duas linhas e letras garrafais.

Satisfiz ainda as vontades do inconsciente coletivo. Acabei com as operadoras de telemarketing, proibi a livre execução monofônica de Pour Elise, tornei os infinitivos inflexíveis e condenei à prisão perpétua tagarelas de todas as plateias.

Os funcionários públicos apressaram-se em tachar-me de exasperado, pitoresco, desatinado. A falta de parafusos e fluidos causou estranheza à repartição. O senhor diretor mandou reinstalar o sistema e, como na mais perfeita narrativa kafkiana, voltei a ser inseto.

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Uma terça qualquer

Era garoto e todo dia, à tardinha, ia ao ginásio fazer exercícios.

Dez minutos o separavam de minha casa, no meio dos quais, sempre às terças e quintas, ali na altura da Rua Santo Elias, cruzava com A Menina Ruiva de Joelheiras Baixadas nos Tornozelos.

O ritual era sempre o mesmo. Ela vindo, eu indo. Ambos com trajes esportivos. Os olhos em contato até um passar pelo outro.

Depois, somente eu olhava para trás. Com duas intenções. O olho esquerdo a mirar seus firmes quadris. O direito a esperar que também ela se virasse.

Enquanto o canhoto acompanhava satisfeito a evolução de seu corpo adolescente, mês após mês o destro perdia suas esperanças.

Até que, em uma terça-feira qualquer, também ela olhou para trás.

Assustado, disfarcei. Dei alguns passos adiante. Parei. Decidi voltar, perguntar-lhe o nome, descobrir por que, finalmente, havia olhado para trás.

A decisão não se tornou ação. Racionalizei. Na próxima quinta-feira sim, quando cruzássemos novamente, mais preparado, eu falaria com ela e descobriria o motivo daquela quebra de rotina.

Ocorre que o olhar era uma despedida. E nunca mais houve quintas ou terças-feiras.


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Alzheimer

Na saúde e na doença; Raquel prometera ao sacerdote. E vinha cumprindo religiosamente.

Foram quarenta anos na plenitude. Agora já são dez na enfermidade. E Raquel sempre mantendo o prometido.

Cada ano que o matrimônio ganha, um pouco de vida Anízio perde.

Hoje ele já não anda, mal escuta e, mesmo para agradecer à cuidadosa esposa, só consegue pronunciar uma palavra:

— Luciana, Luciana, Luciana…

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O Soçobro

Um ano se passara e finalmente estavam a sós entre quatro paredes novamente. Fabrício relembra, como se ontem fosse, o pedido de espera dela. Irresistível em sua armadura de seda.

A distância, contudo, havia feito a paixão se diluir, uma gota a cada dia. Agora Soledade estava ali, em frente a ele, dúbia como uma banana-maçã. Poucos minutos foram precisos para elucidar a incerteza de todos aqueles meses.

Soledade saiu do quarto. Sua imagem, no entanto, ficou na retina de Fabrício. A raiva era tão imensa que ele sorriu. Seus olhos se encheram d’água. E Soledade morreu afogada.

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Ramalhete de Perfídias

Lírio acordou decidido a fazer um agrado para a namorada naquela manhã de primavera. Medíocre que era, dirigiu-se à floricultura mais próxima para enviar a Hortência um buquê e um bilhete de amor.

Observou a vitrine e optou por um arranjo de orquídeas com pétalas violetas. Contou os dinheiros do bolso e adentrou a loja, pensando em transformar seu namoro-bocejo em um mar de rosas.

Posso ajudar?

A voz que perfumava seus ouvidos era de uma atendente de sorriso aberto e pele alva como um copo de leite. Ela carregava o nome Margarida pendurado no seio esquerdo e postava-se para ajudá-lo a comprar o presente de sua namorada.

Acontece que Margarida era infinitamente mais bela que a titular. Aliás, era mais bonita que todas as flores daquele lugar.

E assim Hortência ficou sem seu buquê, sem suas orquídeas, sem o seu Lírio.

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Nascido em 12 de junho

Condenado pela data de nascimento, tornei-me cedo o sujeito mais passional do balneário.

Um mero escambo de olhares era suficiente para dar início a uma história que faria Sófocles corar de inveja.

A derradeira tragédia começou quando conheci uma moça com o pretérito mais que perfeito. Cassandra motivou os melhores anos de minha vida e depois, com uma simples palavra, acabou.

Tentei por algum tempo, porém nunca mais consegui me recuperar. Foi então que cometi o maior de todos os pecados. Racionalizei o amor.

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