O Estado de S. Paulo: TV, para esse pessoal, só na internet

O Estado de S. Paulo: TV, para esse pessoal, só na internet

Walmar Andrade e Rodrigo Muniz Estadão

Matéria originalmente publicada no caderno Link do Estado de S. Paulo em 26 de maio de 2008. Aradecimentos ao jornalista Gustavo Muller e ao fotógrafo Sergio Figueiredo.

O Fantástico vai ao ar todos os domingos. O Roda Viva, da TV Cultura, às segundas. O Programa do Jô é transmitido de segunda à sexta-feira. Todas essas atrações televisivas têm algo em comum: são exibidas à noite – às vezes até de madrugada, como o talk-show de Jô Soares.

A publicitária Juliana Garcia Sales, de 26 anos, é fã desses programas. Mas nem lembra mais quando passou um final de domingo no sofá, assistindo ao Fantástico, ou quando “foi para a cama com o Jô” pela última vez.

Juliana hoje escolhe quando ver TV. Não, ela não tem um videocassete ou gravador digital para gravar seus programas favoritos – ela usa a internet.
“Gosto de TV, mas não consigo mais me adequar aos horários dela”, diz. “Quando todo mundo comenta na segunda-feira uma matéria do Fantástico, entro na Globo.com e vejo o que perdi. As entrevistas do Jô eu assisto no YouTube; no caso dos telejornais, a mesma coisa. Nunca consegui estar em casa no horário do Jornal Nacional.”

Juliana não é uma exceção. É cada vez mais comum encontrar pessoas que trabalham muito e não têm tempo – ou paciência – para acompanhar a TV no horário em que “ela obriga” os espectadores a assistir aos programas. Ou que ficam muito tempo online e, aos poucos, foram deixando o televisor de lado. Afinal, o PC é hoje uma central de mídia para trabalhar, ouvir música, conversar com os amigos, se informar e assistir a vídeos.

“Até pouco tempo eu ficava no computador e deixava a televisão ligada. Daí fui percebendo que ela estava ali apenas para fazer barulho, sabe?”, diz Juliana. “Adoro seriados americanos, mas nunca decoro os horários em que eles passam na TV a cabo, então eu os baixo na web para ver quando der”, justifica.

“Como fico o dia inteiro conectada, foi um processo natural. Antes passava o dia assistindo a videoclipes da MTV. Como ela não passa mais clipes, eu os vejo no YouTube. Monto a minha própria MTV”, ri. Na vida de Juliana, a televisão virou apenas um momento familiar, em que ela e os pais se reúnem para assistir a algo juntos.

Mas há casos ainda mais radicais de gente que decidiu cancelar a assinatura de TV a cabo ou nem tem mais televisor em casa. “Há dois anos não vejo TV e não sinto falta”, diz o empresário Walmar Andrade, de 25 anos. “Gosto do Pânico, mas vou no YouTube e pego só o que me interessa. Não perco meu tempo em assistir àquelas duas horas de merchandising”, alfineta. “A tecnologia proporcionou acesse a um conteúdo que eu posso selecionar e adaptar aos meus horários. Não compensa mais ter TV”, completa seu sócio, Rodrigo Muniz, de 24.

É claro que ainda não dá para dizer que a televisão está sendo deixada de lado pelo computador – principalmente no Brasil. Em primeiro lugar porque o número de brasileiros com internet banda larga em casa é pequeno comparado à quantidade de lares com sintonizador de TV aberta. Segundo: muitas das emissoras televisivas nacionais não disponibilizam na web, de forma integral ou parcial, a sua programação.

Por isso, quando não se acha na rede o conteúdo de “forma oficial” – leia-se: no site da emissora ou em portais de vídeos que trabalham com programação autorizada –, o jeito é se virar, mesmo que isso, “ao pé da lei”, seja pirataria e, portanto, ilegal.
“Com um pouco de paciência e habilidade dá para encontrar absolutamente tudo online”, jura o radialista Rafael Crejoinas, de 23 anos, que nunca teve TV a cabo. Ele acompanha alguns quadros do CQC no YouTube, adora “enlatados americanos” e não perde um jogo de futebol ao vivo na web.

Peraí! Jogos de futebol? Sim. Já existem diversos programas e sites , como o SopCast e Justin TV (www.justin.tv), que exibem partidas de campeonatos europeus e brasileiros em tempo real. A são-paulina Juliana afirma assistir na rede a quase todos os jogos do seu time – mesmo aqueles que são exibidos, a peso de ouro, no pacote pay-per-view de algumas empresas nacionais de televisão por assinatura.

Ou seja, os internautas mais conectados vão em busca do conteúdo que desejam onde quer que ele esteja. Isso vale para programas nacionais e estrangeiros que só passam aqui com atraso – caso típico de séries como Lost.

Nos EUA, essa realidade fez as emissoras de TV de lá se mexerem – no site da ABC é possível ver Lost e outras séries por streaming, e a HBO permite que se baixe o seu extenso arquivo. Isso sem falar de serviços de vídeos como o Hulu (www.hulu.com), onde se pode acompanhar programas da NBC e da Fox. Tudo de graça e legalmente, diga-se.

Nesta edição, o Link mostra como as emissoras brasileiras e os grandes portais se preparam para essa tendência que parece inevitável. Batemos um papo com os comediantes Rafinha Bastos e Danilo Gentili, crias da internet que hoje fazem sucesso na TV aberta, e indicamos um guia com mais de 15 sites de vídeos para mostrar que, no universo dos vídeos online, há vida além do YouTube.

Walmar Andrade
Perguntas dos alunos